control friction

"i'm thinking about my life and that is always a very, very stupid thing to do. the reason for this is that there are some things that don't bear thinking about, some things that if you try to think of them they'll just fuck you up even mair." irvine welsh, paranoia

1.11.09

antónio sérgio (1950-2009)


31.10.09

tales of ordinary madness


fritz lang, metropolis (1927)

A town is a tool. Towns no longer fulfill this function. They are ineffectual; they use up our bodies, they thwart our souls. The lack of order to be found everywhere in them offends us; their degradation wounds our self-esteem and humiliates our sense of dignity. They are not worthy of the age; they are no longer worthy of us.
le corbusier, the city of tomorrow (1924)

e da criação se desfaz o mito.

16.10.09

os grão-capitães


tereza coelho, josé cardoso pires e antónio lobo antunes (1982)

Que se saiba há um único homem que se põe de pernas para o ar como as personagens de Chagall. Por exemplo: está muito bem a comer, surge um rafeiro e ei-lo de sapatos mais altos do que a toalha («Detesto estes cabrões, detesto estes cabrões, detesto estes cabrões») a navegar no azeite do bacalhau como os violinistas do pintor à deriva na tela. Por exemplo: a gente sobe à noite os degraus do elevador da Bica, iluminados de lado de taberna em taberna, eu a cambalear de cansaço nas escadas e ele a flutuar à minha volta como um anjo de óculos, conversando comigo de Antonioni e Godard, primos distantes, com relógios e amantes abraçados em torno do blusão. E há os bares, os cabisbaixos bares tristes de Lisboa, tumulares e desesperados, que o gás ilumina de pavios de azeite amarelo com duas pedras de gelo, debaixo da ponta acesa do cigarro americano, em homenagem a Hemingway e a Fitzgerald. E os restantes flibusteiros connosco. Artur Semedo, a servir atrás do bigode fino a sua ironia de Capitão Blood benfiquista; Dinis Machado, sempre a apear-se de um comboio de inocência perpétua, de sapatinho elegante e sobretudo à George Raft; e eu, o último e mais espantado da troupe, calado, de queixo numa água das pedras vazia. Quando anoitece, José Cardoso Pires começa a ganhar consistência no interior da roupa, íntimo de barmen e do labirinto estranho em que Lisboa se transforma, balizada de chafarizes e polícias que perderam, desde há séculos, o costume de sorrir. As árvores pingam trevas em cima de nós, os prédios aproximam-se, como as ovelhas, para adormecerem, encostando umas às outras os quadris das varandas.

antónio lobo antunes in cardoso pires por cardoso pires (1991)

18.9.09

bossa nova


vinicius de moraes (1975)

um pouco tarde, sim, talvez seja um pouco tarde (agora é tarde, dizes tu, já to tinha dito, repetes), não me peças certezas, não as a tenho. não me digas que é tudo muito natural, (é tudo natural, às vezes). e a despedires-te de mim, assim, (assim, como vês), vês a terra fugir-me dos pés.

13.9.09

a janela


charlie kaufman, synechdoche, new york (2008)

contando os minutos caindo por terra, um a um, o homem despede-se do tempo num gesto perfeito. de seguida, apagam-se as memórias. sem excepção, o actor perde o papel, segue a linha fugaz do horizonte, desaparecendo lentamente até esbater a côr. do sonho a morrer, sobra-nos o pó. no instante seguinte, o mundo esquece. perdido. somos a música na cara do vento, suspirando para longe um nome que já não sabemos ler.

12.9.09

tales of ordinary madness


francis bacon, three studies for crucifixion, ii (1962)

One side of his body rose up, he was tilted at an angle in the doorway, his flank was quite bruised, horrid blotches stained the white door, soon he was stuck fast and, left to himself, could not have moved at all, his legs on one side fluttered trembling in the air, those on the other were crushed painfully to the floor - when from behind his father gave him a strong push which was literally a deliverance and he flew far into the room, bleeding freely. The door was slammed behind him and then at last there was silence.
franz kafka, metamorphosis (1915)

e por vezes achar que me cresce uma carapaça. e umas patas também.

11.9.09

da lógica das despedidas. sargento pimenta, dos bigodes aos uniformes das bandas de marcha


robert fraser, sgt. pepper's lonely hearts club band (1967)

no reino das metáforas perdidas, fica-se mais próximo da saudade,
de lá de dentro, os calafrios de quem já se foi sem querer partir bebem as últimas palavras como quem busca razões sem resposta,
das sombras escondidas nos cantos da tua boca, sente-se o sorriso subtil que murmura baixinho um
'até já'.

7.7.09

stultifera navis


agência reuters (2005)

To subdue the enemy without fighting is the supreme excellence.
sun tzu, the art of war (séc. VI ac)

londres, quatro anos.

5.7.09

tales of ordinary madness



Dim not ever having much of an idea of things and being, beyond all shadow of a doubting thomas, the dimmest of we four. Then we wore waisty jackets without lapels but with these very big built-up shoulders ('pletchoes' we called them) which were a kind of a mockery of having real shoulders like that. Then, my brothers, we had these off-white cravats which looked like whipped-up kartoffel or spud with a sort of design made on it with a fork. We wore our hair not too long and we had flip horrorshow boots for kicking.
'What's it going to be then, eh?'
There where three devotchkas sitting at the counter all together, but there were four of us malchicks and it was usually like one for all and all for one.
anthony burgess, a clockwork orange (1962)

e ler, pode ser que se aprenda um bocadinho.

23.6.09

tales of ordinary madness

Sometimes, the soft literary citizens of liberal democracy long for prohibition. Coming up with anything to write about can be difficult when you are allowed to write about anything. A day in which the most arduous choice has been between “grande” and “tall” does not conduce to literary strenuousness. And what do we know about life? Our grand tour was only through the gently borderless continent of Google. Nothing constrains us. Perhaps we look enviously at those who have the misfortune to live in countries where literature is taken seriously enough to be censored, and writers venerated with imprisonment. What if writing were made a bit more exigent for us? What if we had less of everything? It might make our literary culture more “serious,” certainly more creatively ingenious. Instead of drowning in choice, we would have to be inventive around our thirst. Tyranny is the mother of metaphor, and all that.
james wood, love, iranian style, in the new yorker, (06.2009)

4.6.09

david carradine (1936-2009)


foi-se o bill.
caem que nem tordos. é verão.

stultifera navis


dario mitidieri, tiananmen square (1989)

tiananmen vive. até o tempo se calar, tiananmen vive.

3.6.09

vasco granja (1925-2009)


koniec.

15.5.09

tales of ordinary madness

era uma sensação que me envelhecia, me tornava mais homem, dissociando, na minha carne, mais do que na experiência automática da carne, ou na consciência do prazer explorado com a carne e nela, as contorções profissionais que falsamente conquistam e a que, passivo, se assiste, das mesmas contorções que, espontâneas e naturais, são provocadas pela atracção dos gestos e dos corpos esquecidos de si mesmos.
jorge de sena, grã-canária (1961)

14.5.09

das histórias inacabadas.


wong kar-wai, chungking express (1994)

há vários dias com este buraco no peito. de mãos atadas, entende-se que o silêncio é a pior das respostas.
se pudesse, enlouquecia. sorrindo no escuro, que nem um louco, à morte anunciada.

21.4.09

j.g. ballard (1930-2009)



a widespread taste for pornography means that nature is alerting us to some threat of extinction.
j.g. ballard, news from the sun, in myths of the near future (1982)

20.4.09

dos sorrisos no escuro.

e em querer perder-me por aí contigo, e ao dançar silenciosamente nos entendermos como a um par, e na rua sentires a minha mão tocar na tua, e no fim saberes que vou ficar por perto.
porque tens sempre café para mim, porque haverá sempre um parque não muito longe daqui.
numa cidade sem nomes, deixa-me gritar o teu. em segredo, para nós os dois.

19.4.09

*

somos filhos da tela em branco.

30.3.09

tales of ordinary madness

Fica aqui perto. Da esquerda para a direita, a imagem, sem legenda, lê-se. Perto, lê-se demorada, e intima; é a figura de um amante.
Banham os dedos das mãos quatrocentas mil sílabas, e em tudo tocam, agora que o corpo se deixou de encontrar, se deixou procurar. Procura.
As noites nunca são tão escuras quando os homens conseguem esquecer tudo o que aprenderam, faltar a tudo o que prometeram, trair tudo quanto acreditaram, só pelo primeiro cetim de um beijo, nesse sabor doido de boca. Depois, os amantes partem sempre, deixando, sem vida, tudo aquilo que amaram. Partem sempre.
E o que fica, fica perto, dói, não se separa ou atenua - adoece simplesmente, ensinando a quem sente, o prazer terrivel da mágoa, a ininterrupta saudade do que nem sequer foi alegria - uma espécie, enfim, de amor. Numa espécie de corpo que ficou sozinho.
miguel esteves cardoso, joy division: alguns lugares (1980)


dores da falta, da vontade que nos ata ao leme. love will tear us apart.

27.3.09

anatomia de consciência

o pragmatismo das relações que leva consigo a necessidade do conforto ao ego faz-me chegar a uma triste conclusão - preciso de alguém que me enrole os cigarros.

19.3.09

do machismo lusitano em terra côr de gules com três leões ao peito

passar três horas rodeado por miúdas giras já é bom auspício. quando uma dessas miúdas passa essas três horas a mexer-me no cabelo, ainda melhor. daí resultará o corte, mester que se revela de uma aprendizagem demorada, explicando assim as três horas passadas. tratando-se de uma escola, cobram apenas cinco libras – cinco libras esterlinas que traçam uma linha ténue entre o mero gadelhudo e um cliente satisfeito em tempo de recessão. se isto não é o chauvinismo do novo milénio, então não sei o que será.
mas o meu cabelo está mesmo com bom aspecto.

16.3.09

o axioma de assis



joaquim maria machado de assis (1839 - 1908)



ou muito me engano, ou acabei de escrever um post inútil.
para o rui.

26.2.09

#76 to Tottenham

07:16 pm. dois homens na paragem, ambos à espera:

- LAST STOP!
- why are you shouting?
- because this is the LAST STOP!
- say, do you know where the first stop is?
- ahm... no.
- thank god, i thought you were some kind of a lunatic!

uma cidade onde godot não vem. outra.

23.2.09

tales of ordinary madness

life is so hideously ugly, we mortals so abismally evil, that were an author to portray everything he had seen or heard, no one could endure to read it.
august strindberg, diary entry (1904)


dores de parto, compreensivelmente.

28.1.09

tales of ordinary madness


augusto de campos, psiu (1966)

a desilusão da modernidade é feita de pastiche e colada com cuspo. pregada nas ruas, chega a casa por cabo, as caixas de correio vazias e o linguajar no teclado. passe social multimodal pseudo-intelectual passivo-agressivo. obssessivo. lá fora com desconhecidos, lá dentro como alienados, o ritmo do tempo bate descompassado, à espera da fila que dá o bilhete para a fila que deixa comprar, e há fila para sair, há traumas e violência bipolar, naifadas e cacetadas, esquerda, direita - marcham à porrada e matam sem saber. há vontades indulgentes e caprichos necessários, há homens de natureza mecânica, há máquinas de natureza messiânica. cupões de desconto, saldos, promoções, dois em um, leve três pague quatro. radioactivo silencioso.
e o barulho engarrafado é ensurdecedor. sem memória nem modéstia, modernidade, ideia-ruído.

27.1.09

o silêncio dos poetas

do tempo. da desilusão do tempo. da desilusão do tempo que resta.
de todos os dias, um após outro, e dos milhões que se rodeiam.
nesta cidade o um é um, mais um mais um mais até chegar ao fim, sempre a sós.
no fim da linha, muda-se de carruagem, e do silêncio se escova o nada.
o desespero faz-se alma inglesa, gritando para dentro.

20.1.09

joão aguardela (1969-2009)



a verdade apanha-se com enganos.

stuff