tereza coelho, josé cardoso pires e antónio lobo antunes (1982)
Que se saiba há um único homem que se põe de pernas para o ar como as personagens de Chagall. Por exemplo: está muito bem a comer, surge um rafeiro e ei-lo de sapatos mais altos do que a toalha («Detesto estes cabrões, detesto estes cabrões, detesto estes cabrões») a navegar no azeite do bacalhau como os violinistas do pintor à deriva na tela. Por exemplo: a gente sobe à noite os degraus do elevador da Bica, iluminados de lado de taberna em taberna, eu a cambalear de cansaço nas escadas e ele a flutuar à minha volta como um anjo de óculos, conversando comigo de Antonioni e Godard, primos distantes, com relógios e amantes abraçados em torno do blusão. E há os bares, os cabisbaixos bares tristes de Lisboa, tumulares e desesperados, que o gás ilumina de pavios de azeite amarelo com duas pedras de gelo, debaixo da ponta acesa do cigarro americano, em homenagem a Hemingway e a Fitzgerald. E os restantes flibusteiros connosco. Artur Semedo, a servir atrás do bigode fino a sua ironia de Capitão Blood benfiquista; Dinis Machado, sempre a apear-se de um comboio de inocência perpétua, de sapatinho elegante e sobretudo à George Raft; e eu, o último e mais espantado da troupe, calado, de queixo numa água das pedras vazia. Quando anoitece, José Cardoso Pires começa a ganhar consistência no interior da roupa, íntimo de barmen e do labirinto estranho em que Lisboa se transforma, balizada de chafarizes e polícias que perderam, desde há séculos, o costume de sorrir. As árvores pingam trevas em cima de nós, os prédios aproximam-se, como as ovelhas, para adormecerem, encostando umas às outras os quadris das varandas.
antónio lobo antunes in cardoso pires por cardoso pires (1991)